domingo, 10 de junho de 2007

Desejos e Ensejos - Cap. II - O telefone

Gabriel escreveria “Querido diário,” antes de “O dia hoje começou com chuva. Dormi nu – não que tenha um corpo bonito de admirar e louvar como aqueles que apresentam a colecção Verão 2007 de calções de banho do El Corte Inglés, mas apeteceu-me. Asneira: Estou constipado!” se não achasse uma “piroseira”, como dizia ele à mãe. Maria Hellena – a mãe –, era uma mulher austera com a família e com os valores (sociais?), recusava-se a conformar-se com a bissexualidade do filho, que para ela ainda era pior que homossexualidade: “Pelo menos esses, Gabriel, não se metem com qualquer um, como o menino”.


Era depois de estas acesas discussões com Millena Sacadura, como era conhecida do mundo do socialite, que Gabriel se enclaustrava no quarto a escrever o diário que um diz esperava ver editado. Gabriel sabia que o nome Sacadura ainda lhe valeria de alguma coisa, ainda que, para Millena, fosse uma vergonha ver o tão honrado nome de família associado à publicação de desaires (homo)sexuais.


Foi um momento desses. Gabriel sentou-se ao computador e começou a escrever sem filtrar as palavras que pela caneta surgiam:


“Cruzei-me com o Diogo na estação quando estava à do meu comboio para Lisboa. Não falamos nada desde então. Teima em não responder às minhas mensagens. Não sei mesmo o que fazer. Aliás.. Sei. Ignoro-o.


Estou farto. Farto de tentar escrever e só me sair namoricos e amores não correspondidos. Afinal, não são só eles que me preocupam… os amigos também. O Pedro e a Inês – as coisas estiveram difíceis entre nós numa destas noites. Eles decidiram deixar-me algures no meio de uns amigos (a Rita também lá estava, é verdade, mas não é a mesma coisa.). Já resolvemos os nossos problemas e agora sinto-me mais ligado a eles, ao Pedro particularmente, até porque a minha relação com a Inês já era muito boa! Eu…”




Gabriel levantou-se: o telefone tinha tocado. Millena estava a chamar Gabriel, era a Francisca. Tinha chegado de viagem. Tinha ido com os pais a Nova York.


- Gabriel, que saudades tinha de te ouvir. – Francisca falava tão depressa que Gabriel, por vezes, tinha que pedir para repetir. – Cheguei agora de Nova York. Entrei em casa, peguei no telefone e liguei-te. Isto já há vinte minutos. Sabes como é a tia Millena. Como vão as coisas? Como vais tu?


- Eu, bem, eu…


Francisca interrompe Gabriel com um grito estridente:

- Ai, Gabriel, não te ouvir a choramingar de novo. Tu precisas mesmo é de ver o que comprei na Fifth Avenue ou na Seventh Avenue. A minha mãe continua a achar que a Fashion Ave devia ser a Fifth Avenue e não a Seventh Avenue. Acabei por não entrar no Museu Solomon R. Guggenheim. Olha… vem ter comigo: conto-te já as novidades todas. Quinze minutos e tens o nosso motorista ai à porta. Beijo.


- Não...




Desligou e Gabriel foi buscar o casaco e os óculos de sol para sair. Não disse nada à mãe que havia estado sentada ao piano, mesmo à sua frente, sem nada tocar durante todo o telefonema de Gabriel. Saiu.

7 comentários:

Martinha disse...

Está deveras interessante, esse texto.
Haverá um próximo capítulo? *-)

Beijinho Hugo.

O que te vai na alma!! disse...

A martinha nao disse mas esta implicito... fico a espera do próximo...

;)
abraço

Sonia Neves disse...

Gostei do texto! Espero pelo próximo! Aproveito para te deixar um bjinho e desejar "mta merda" pra epoca de exames!!

kapuxa disse...

O Pedro e a Inês...e a Rita! tb gosto deles =)

Isto tá a ter sucesso..tds esperam ansiosos pelos próximos capítulos!

beijinhos * * *

ekubo disse...

Prometi que comentava e por isso aqui estou eu... Tardou mais chegou! ;)
Já sabes a minha opinião sobre o texto, mas mesmo assim vou reafirmar que gosto muito dos traços que esta história está a começar a ter...

Espero ansiosamente pelo próximo! :)

beijinho!

zetrolha disse...

És a nova Candace Bushnell de calças...
i rest my case.

pedropina disse...

estou a ler...espero MESMO plo proximo, e plo gabriel....