"Nunca manhã suave
estendo seus raios pelo mundo,
depois da noite grave,
tempestuosa, negra, em mar profundo,
alegrou tanta nau, que já no fundo
se viu em mares grossos,
como a luz clara a mim dos olhos vossos…
– Para mim é das estâncias mais perfeitas de Camões.
– Nuno, tenho tanta pena de não assistir à tua comunicação... que chatice, as análises...
– Pois é, já não vais poder fazer claque com as moscas.
Filipe sorriu. – Mas depois dás-me o texto, para eu ler.
– Claro – disse Nuno. – No fundo é uma réplica ao teu lindíssimo trabalho; concretamente à parte sobre o lamento de Frondélio na Écloga I, onde eu achei que podia pegar na questão de outro modo… depois podemos falar do assunto se quiseres…
– A melhor coisa da minha vida são as nossas conversas.
Nuno fechou os olhos e respirou fundo. Ao abri-los retribuiu serenamente o olhar do Filipe. – Para mim também.
– Tenho estado a pensar no que aconteceu ontem... acho que as coisas já me estão a fazer mais sentido... Nuno, percebes o que eu quero dizer?
– Acho que sim, não sei...
– Mas atirar tudo ao ar, doa a quem doer... Nuno, não sei se sou capaz, estou num dilema terrível...
– Filipe, por mim as coisas serão como tu quiseres. Não vou pedir nada. Quem pede, quem vai tomar essa decisão, és tu."
in 'pode um desejo imenso', by Frederico Lourenço.

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